terça-feira, 11 de junho de 2019

Deodato Holocaust (2019) | Dir: Felipe M. Guerra


Por Mauricio Castro

A 15ª edição do Fantaspoa (Festival de cinema fantástico de Porto Alegre) nos brindou com gratas surpresas. A presença do mestre Roger Corman e Christina Lindberg (sim, a  musa de Thriller - A Cruel Picture) deixou os fãs do cinema exploitation em polvorosa. E na sessão de abertura tivemos um ótimo documentário sobre um cineasta que amamos muito: Ruggero Deodato. Este também esteve presente na sessão que o homenageou. Comentando o longa, e como sempre irreverente e resmungão (rs).

O Cineasta tem sua carreira revisitada e contada por ele mesmo. Ao contrário de documentários que são formados a partir de um coro de vozes, Deodato Holocaust aposta no narrador único e confia no ponto de vista do próprio autor sobre sua obra.  Apesar disso, temos certos momentos de questionamentos e críticas em "off", afinal, a obra de Ruggero tem suas polêmicas (sim, a velha lenga-lenga da tartaruga...).

Apesar do título, Deodato Holocaust não usa o clássico filme de canibal como seu carro-chefe. A filmografia de Ruggero é abordada de forma homogênea e bem equilibrada. The House on the Edge of the Park, Raiders of Atlantis, o começo no cinema clássico italiano, a parceria com a Cannon, a amizade com David Hess... O que vemos em tela é um homem apaixonado pela sétima arte, um mestre quando se trata de do it yourself.

Vamos torcer que Deodato Holocaust siga no circuito de festivais e receba todo o reconhecimento que merece. E vida longa a Ruggero Deodato! 


segunda-feira, 6 de maio de 2019

Zombie High (1987) | Dir: Ron Link


Por Maurício Castro

Em 1987, Ron Link já era um diretor de renome nos teatros de Nova York. Já tinha dirigido o jovem Robert de Niro, na peça Glamour, Glory and Gold, e o novato Stallone em Somerset Maugham's. Teve também o privilégio de trabalhar com Divine (a atriz cult de Pink Flamingos) em Women Behind Bars. Eis que, Ron decide trabalhar com a sétima arte, e nos entrega o divertido, porém, (muito) confuso Zombie High.

Não se deixe enganar pelo título. Zombie High não tem (quase) nada de zumbis. E se você espera o zumbi tradicional, aquele morto vivo comedor de cérebros, vai dar com os burros n'água. Os zumbis de Ron Link funcionam mais como um crítica, uma metáfora. Calma, já te explico. Avisados? Vamos ao enredo. 

Andrea está em processo de mudança de escola. A bela jovem, vivida por Virgina Madsen (isso mesmo, a irmã do nosso eterno Cão de Aluguel Michael Madsen, e mais lembrada por Candyman), passa por um relacionamento já desgastado e o internato parece uma boa fuga desse problema, além disso, a instituição tem um ótimo currículo e diversos ex-alunos que hoje são político de sucesso. 
Ao chegar na escola, Virginia sente-se atraída, e ao mesmo tempo intimidada, por um dos professores (Richard Cox, de Cruising). Não suficiente, a garota terá outros problemas ligados ao misterioso local.  Entre eles, a descoberta sobre um plano diabólico envolvendo os professores.

Análise com Spoilers:

Na sua primeira hora, Zombie High se mostra com um college movie, ao melhor estilo John Hughes. Ou seja, piadinhas sobre cotidiano adolescente, o conservadorismo americano versus a juventude oitentista, a tensão sexual, enfim, o de sempre, porém sem o mesmo carisma de um Clube dos Cinco, por exemplo.

O filme segue esse tom até quase seu ato final. E é nessa última meia hora que tudo muda, e vai do college ao terror, ou a tentativa de fazer um filme de terror. Bom, vamos lá:

Virgina descobre que os professores usam seus alunos para obter um elixir rejuvenescedor e assim obter a vida eterna. Além de transforma-los em "zumbis", para que esses tenham obediência e sucesso na carreira estudantil e profissional. 

Sim, é isso mesmo que você leu aí. 

Talvez, eu disse talvez, Zombie High tivesse a intenção de ser uma crítica, ou metáfora, ao sistema de ensino americano. E seja um filme de mesma temática que o disco The Wall, do Pink Floyd. Talvez, de novo, seja uma crítica ao governo Reagan. Mas a certeza que temos é que você precisa conhecer essa pequena pérola dos 1980's.



quarta-feira, 17 de abril de 2019

Mark of the Devil (Hexen bis aufs Blut gequält, 1970) | Dir: Michael Armstrong


Por Mauricio Castro

Mark of the Devil é um filme mais lembrado pela sua reputação do que pelo seu valor cinematográfico. Injustamente diga-se de passagem, já que o longa é muito mais que o mero sadismo visual que sua fama propaga. 

Primeiro filme a receber classificação "V for Violence", a distribuição de saquinhos para vômito no cinema, chocante e perturbador, e blá blá blá. Mas de fato, esse exploitation sobre a inquisição, que antecipou em décadas o torture porn, merece sim sua atenção. E mais, esse que vos escreve é fã declarado do longa.

Ambientado em um vilarejo da Áustria, no século XVIII, Mark of the Devil irá nos mostrar através dos olhos do jovem inquisidor aprendiz Christian Von Meruh (Udo Kier, um dos nossos favoritos aqui no Blog) toda a barbárie que foi esse período. Seu mentor, Lord Cumberland (o veterano Herbert Lom) é um homem sexualmente frustrado, impotente (tanto ódio e recalque no coração devia mesmo ter um motivo, né?), e acredita fielmente na tortura como modo de purificação da alma, e na palavra do senhor Jesus Cristo (ou seja, gente de Deus fazendo maldade, novidade? Nenhuma). Ao conhecer Vanessa (Olivera Katarina), Christian vê nela uma vítima, condenada injustamente por bruxaria, e começa a repensar suas certezas e crenças. 

Mark of the Devil se vale de um dos períodos mais cruéis da história da humanidade para criar sequências de revirar o estômago dos desavisados. Claro que se tratando de um filme de 1970, pode perder o impacto diante de uma platéia já insensível à violência após os Albergues e Jogos Mortais da vida, porém, é uma obra cinematográfica corajosa. Não apenas pelo conteúdo gráfico, mas também, por tocar na ferida religiosa. 

Curiosidades: 

A trilha sonora de Michael Holm foi usada na sequência de abertura em Hobo With a Shotgun.

O veterano Michael Armstrong foi um dos roteiristas de Lifeforce, clássico de Tobe Hooper. 

Mark of The Devil teve uma sequência, em 1973, porém, sem nenhuma ligação com o filme original. 




sábado, 23 de março de 2019

The Dirt (2019) | Dir: Jeff Tremaine. (Netflix)


Por Mauricio Castro

Sabe aquele filme sobre banda de rock bonitinho que poderia passar na sessão da tarde e é indicado ao Oscar? Pois é, nessa produção do Netflix sobre os malucos do Motley Crue isso tudo passa longe. Escatológico, chapado e divertido pra caralho, The Dirt não se desculpa pelas merdas feitas pelos músicos, que aliás, são produtores do filme. Jeff Tremaine (Jackass) tem um senso de humor de um moleque de 14 anos, e isso, pelo menos pra esse que vos escreve, é tipo de comédia que se espera sobre uma banda de "Metal Farofa" (esse termo entrega a idade hein?).

Pornô com Pamela Anderson ( a moça, pelo visto, não quis ter sua imagem vinculada a essa galhofa), Tour com Ozzy Osbourne (numa das cenas mais nojentas do longa), overdoses e mais overdoses, squirtle (de cara, já na abertura. Ah, você não sabe o que é squirtle? Vai no twitter e pergunta, ora bolas!), tudo isso é só a "ponta da carreira". 

Faça uma dobradinha com This is Spinal Tap e reviva os tempos de um rock and roll retardado e sem pudor.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Clube dos Canibais (The Cannibal Club, 2018) | Dir: Guto Parente


Por Mauricio Castro

Após percorrer o circuito de festivais internacionais, angariar prêmios e elogios, o novo trabalho de Guto Parente pôde ser conferido na mostra A Vingança dos Filmes B, em Porto Alegre, no verão de 2019. 

Não se engane pelo título, este não é um exemplar (ou homenagem) ao subgênero italiano canibal. Muito menos um torture porn ao estilo Albergue. O Clube dos Canibais usa a metáfora da antropofagia para grifar o pior da elite brasileira.

Elite essa que se denomina conservadora nos costumes e liberal na economia, defensores da família tradicional e fervorosos nacionalistas, ou seja, aquele tipinho puxa-saco que vota em militar, sonha com pistolas automáticas, e acha que pobre tem mais é que trabalhar até morrer. 

Metáforas à parte, o "clube" do título é bem concreto, aparece em tela, e exibe a crueldade que o título prenuncia. Nele, temos homens burgueses que se deleitam ao contemplarem a desgraça alheia, leia-se: a desgraça de pobres coitados, que aos olhos destes, nem seres humanos são. E na trama central, temos um casal que além de se banquetear com a carne "mais barata do mercado" (como diria Elza Soares), ainda se divertem com fetiches sexuais, humilhação dos funcionários e jogos psicológicos. 

Falar mais sobre a premissa de O Clube dos Canibais poderia estragar sua experiência. 
O Clube dos Canibais pode ser considerado um "irmão espiritual" d'O Animal Cordial. Em ambos, a figura vilanesca tem a mesma fragilidade no ego, a mesma falta de empatia, o vício no poder e a necessidade de subjugar os fracos. Enfim, ótimo trabalho que exala ironia e só reforça que o que já dizia aquela velha canção dos mutantes: Dê um chute no patrão! 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Trauma (2017) | Dir: Lucio A. Rojas - Crítica


Por Mauricio Castro

Sob comando do General Augusto Pinochet, a ditadura militar Chilena foi uma das mais cruéis da história. De 1973 até 1990, o regime foi responsável pela morte de cerca de três mil pessoas e pela tortura de mais de 40 mil.  Esta chaga, ainda aberta na America Latina, é a base de Trauma, mais recente filme de Lucio A. Rojas.

Quatro garotas decidem fazer uma viagem até uma zona rural do Chile, e neste local, são violentadas e torturadas por dois homens cruéis. A premissa parece render apenas mais um slasher com toques de rape and revenge, né não? Pois é. No entanto, Rojas enxerta no enredo toda a barbárie do passado recente do país. O sadismo dos militares de Pinochet, leia-se fascistas de carteirinha, é uma herança que estes homens carregam nas veias, e sabem muito bem fazer uso do mal para destruir a alma de suas vítimas, e por consequência, a do espectador. 

Trauma tem circulado pelos festivais de cinema fantástico, e vem criando fama entre o público underground. Até mesmo os iniciados têm citado o filme como "o mais pesado desde..." ou "mais perturbador que A Serbian Film". Muita calma nessa hora. Sim, Trauma pega pesado e se esforça para gerar desconforto nos "corajosos" que se prestam a assisti-lo, porém, é muito subjetivo que o conteúdo gráfico do filme vá de fato lhe impactar.  Afinal, se você é velho(a) de guerra nessa longa estrada do horror, já deve ter visto coisas de sarapantar. Mas como eu disse, isso é subjetivo. 

O grande mérito de Trauma é jogar uma luz na crueldade dos regimes totalitários. É nos lembrar que a história recente tem vilões piores que o cinema de horror pode imaginar. É um alerta aos que pedem a volta da ditadura, e aos que confundem vingança com justiça social, acima de tudo, como escreveu Hannah Arendt, é sobre a banalidade do mal.  

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Animal Cordial (2017) | Dir: Gabriela Amaral Almeida


Após diversos trabalhos para a televisão e a realização de curtas metragens, Gabriela Amaral Almeida estréia na direção em um longa seguro e cheio de personalidade, esse é O Animal Cordial.

Inácio (Murilo Benício) é dono de um restaurante que, pelos indícios do roteiro, já teve dias melhores e vive às custas da popularidade de outrora. Um chefe que acredita no conceito de que o "olho do dono que engorda o gado", e assim, faz questão de controlar o local (e os funcionários) com rédea curta, ou seja, um patrão daqueles... pau no cu. O clima nesse restaurante já é pesado desde o começo do filme. E é nesse ambiente, e apenas neste ambiente, que a loucura de Animal Cordial vai se desenrolar.

Completando o cenário da tragédia temos uma funcionária puxa-saco (sempre tem né?), os poucos clientes da noite (um casal pequeno burguês e um solitário misterioso), um cozinheiro homossexual e empoderado (meu personagem favorito do longa, aliás), e o elemento catalisador de toda essa tensão: os dois ladrões que irão invadir o espaço. 

Animal Cordial segue uma linha perigosa dos longas metragens ambientados em apenas um cenário. Esse tipo de produção precisa de um roteiro impecável para que se sustente e mantenha a atenção do espectador, afinal, seus recursos são limitados.  E nisso o filme de Gabriela segura a onda, e mais, não recorre nem mesmo aos flashbacks para "escapar" da atmosfera do enclausuro, nada disso, Animal Cordial é um filme sem alívio. 

Animal Cordial usa uma premissa extremamente simples para se revelar uma metáfora sobre a luta de classes, expõe os preconceitos do brasileiro médio, e sem dúvida é ótima surpresa e um dos melhores filmes de terror nacional dos últimos anos!